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EDITORIAL
Eram (os) cinco
Escrevo este post em clima de desalento. E, vale frisar, exclusivamente como consumidor de boas cervejas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Como já é de conhecimento geral dos apreciadores da nobre bebida, a maior e mais famosa microcervejaria do Brasil, a Eisenbahn, foi vendida para o grupo Schincariol. Em mês de comemoração dos 40 anos de maio de 1968, e guardadas as devidas proporções, meu primeiro pensamento foi: “O sonho acabou”. E tive raiva.
Critiquei, blasfemei e esbravejei contra comprador e comprado. Depois a ficha caiu: cada qual está em seu papel. Quem tem dinheiro, compra. Quem está em dificuldade e sente que não pode mais caminhar com as próprias pernas, vende. E fiquei triste. Será esse o destino de todas as micros que começarem a fazer sucesso no Brasil? Em meio a uma euforia pelo crescimento do mercado micro/artesanal, seria impossível termos um cenário parecido com o dos Estados Unidos, com suas mais de mil microcervejarias?
“Nosso negócio é inviável”, lamentou um microcervejeiro ao saber da notícia. De fato, produtores como a Eisenbahn não têm vida fácil. Primeiro, pelos impostos, os mesmos de empresas com litragens centenas de vezes superiores. Depois, pela burocracia: reza a lenda que a Eisenbahn, há algum tempo, tentou aprovar a produção de uma witbier junto á autoridade competente. Não conseguiu: a alegação foi de que não era permitido adicionar casca de laranja à cerveja. Mas e a Hoegaarden?. A resposta da autoridade foi de que o produto importado estava sujeito a outra legislação. Há ainda o aumento do preço das matérias-primas, este ano, e o duelo com importadas da Bélgica e Alemanha a preços muito convidativos. Some-se a isso a pressão societária por resultados a curto prazo, o final das reservas de investimento e o estrago está feito.
Entendo perfeitamente os argumentos de que uma grande empresa poderá gerenciar melhor uma produção de cervejas especiais, melhorando distribuição, preço e tendo mais “blindagem” contra encarecimento de matérias-primas e mais condições de brigar por uma política tributária mais justa. Mas por que será que não podemos ter empresas pequenas e locais de qualidade aqui e ali, vendendo sua cerveja a um pequeno nicho do consumidores? Pelo que foi anunciado hoje, mais valem dez micros pequenas que uma maior que está sempre na mira de grandes empresas e com a corda no pescoço. Será que o mercado tem de ser exclusivamente dividido entre grandes complexos cervejeiros e produtores de médio porte regionais que tentam fazer concorrência pelo preço e não pela qualidade?
A questão também passa pela simbologia das micros. Citando o já manjadíssimo (e brega) livro “O Pequeno Príncipe”, hit de sempre entre as misses, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.A última micro que esperava ver vendida a um grande grupo era a Eisenbahn, que há tempos havia se tornado a condutora do mercado artesanal brasileiro. Afinal, o exemplo em que a empresa se mirava era a Samuel Adams, que ainda é uma cervejaria independente nos Estados Unidos. Desde que virei fã da produção de Blumenau, a via como a “aldeia gaulesa isolada que o império romano nunca conseguiria conquistar”. Na maldita mania de só enxergar poesia nas coisas que se vão, penso agora que, depois de um dia de cinismo vendo o absurdo, o errado e o inaceitável se darem bem, era sensacional chegar em casa e constatar que engenho, arte, coração e, por que não, uma boa dose de abnegação – os caras também se ralavam, mas faziam bem-feito - cabiam em uma garrafinha de 355ml.
Apesar dos dilemas já debatidos com um dos ex-donos da Eisenbahn sobre estar diante da gôndola do supermercado – afinal, a aquisição de uma cerveja, para quem gosta, também é uma escolha entre ajudar um produtor ou outro -, defendia a marca sempre que podia. Viagem a Campos do Jordão? Eisenbahn na mala, em pleno território da Baden. O colega vai abrir um bar? Nada de Brahma, Eisenbahn é muito melhor, vai por mim. Gringos que perguntavam por Xingu e afins? Apresento-lhes a Eisenbahn. E agora? Me sinto ridículo enumerando isso. Parece ínfimo agora. Afinal, não sou dono de microcervejaria nem cervejeiro caseiro, apenas um reles apreciador da nobre bebida que tomou gosto por entender a magia por trás desse tal fermentado de malte e lúpulo. Mas será que outras pessoas não sentem o mesmo?
Seria injusto dizer que a Schincariol vai mexer na qualidade das cervejas. Não notei isso na degustação da Baden Baden, pelo menos.Tampouco parece ser a intenção do grupo: no caso da ex-micro de Campos do Jordão, optou-se por um mestre-cervejeiro com competência suficiente para manter a locomotiva andando sem problemas. Mas fica a pergunta: será que uma empresa de grande porte teria a visão “micro” e artesanal de desenvolver novos tipos de cerveja, como a Lust, a Rauchbier, ou realizar um concurso entre cervejeiros caseiros e produzir a Dama do Lago, belgian dark ale do Leonardo Botto? Cabe lembrar que a Schin está comprando cartas de cerveja já prontas, mas não tinha (e não tem ainda) nada em seu próprio portifólio além de pilsen, munich, malzbier e cerveja com tequila e limão.
As cinco grandes microcervejarias (Eisenbahn, Baden, Devassa, Dado Bier e Colorado) viraram duas. Agradeço à Eisenbahn – àquela que, hoje, já é de outrora - pelas ótimas cervejas, idéias e competência. Também queria lembrar do mestre-cervejeiro, Gerhard Beutling (ô profissão que às vezes passa despercebida; mereciam um monumento ao cervejeiro desconhecido), pai ou padrinho dessas receitas todas, que depois de uma vida na Brahma ainda achou disposição para fazer uma microcervejaria brilhar.
Mas ficou mais claro, agora, quais escolhas farei quando estiver na frente da gôndola de cervejas do mercado, para evitar que o dia de hoje se repita com outros produtores. A melhor munição da guerra pelo mercado está no bolso do consumidor e na cabeça e nos panelões dos cervejeiros caseiros, que, torço muito, logo serão os micros de amanhã. À batalha.
Em tempo: a favor do pluralismo de opiniões, indico aqui o link para o comentário que julguei mais embasado contra as críticas à negociação.
Em tempo 2: Revendo a lista de cervejas da Eisenbahn, constatei que, desde 2003, não passou um ano sem que a micro tivesse lançado uma cerveja nova. Acho que esta é a questão-chave: terá a Schin criatividade e interesse para manter a média? Espelhando o caso ao da Baden Baden, a Fünf correria risco, pois lá a produção da porter Baden 20 Anos foi "tosada". A boa notícia é que o diretor de marketing da Eisenbahn, Juliano Mendes, segue no cargo. Possivelmente, o mestre-cervejeiro Gerhard Beutling também deve ficar. A ver, a ver...
Escrito por Bob2 às 18h19
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APPENZELLER HANFBLÜTE (SUI, 500ML)
O 'elemento x' e o enólogo surpreso

Era uma vez uma erva que não podia ter sua legalização defendida em marchas. E que, a despeito das pesquisas que associam seu consumo à perda de memória, me fez lembrar desta cerveja que provei na Suíça. Deve ser porque não sou usuário da tal erva (rs).
Antes de chegar à cerveja, porém, já tinha topado, em uma estação de trem da região alemã, com uma máquina de salgadinhos em que se destacava uma latinha (quer dizer, invólucro de cartolina) laranja-vivo, com uma grande folha da tal planta estampada em verde. Bom, se estava na maquininha, deveria ser legalizado, pensei. E comprei o tal chazinho. Pelo que me lembro, devia ser puro marketing, porque não havia nem cheiro nem gosto da “coisa”. Uma colega de viagem resolveu comprar e tomar também. Mesmo não tendo gerado absolutamente nenhum efeito além de risadas, deixou boquiaberta uma turista japonesa, ao ouvir a explicação sobre o que era a tal bebida.
Já sem a puritana nipônica ao lado, e no último dia de viagem, seguimos a sugestão de um colega cosmopolita de viagem e fomos a um restaurante ligeiramente afastado do centrão de Zurique. Ao ver a Hanfblüte no cardápio, resolvi pedir uma, o que fez com que os outros companheiros de excursão – um fotógrafo chileno mucholoco e colega que indicou o restaurante, que também é enólogo de carteirinha – seguirem a escolha, confiantes em minha habilidade como cervejólogo (hahaha, ponderaria com meus botões).
Quando a cerveja chegou e foi servida, impregnou o ar daquele cheiro característico de... bem, vocês sabem o quê. Franzindo as sobrancelhas, o colega enólogo procurava saber de onde vinha aquele aroma, até que mirou as garrafas. Pegou, cheirou e disparou: “Do que é essa cerveja mesmo?” Ao ouvir a resposta, segurou-se e, polidamente, pediu ao garçom o cardápio novamente, oferecendo-nos – a mim e ao chileno – sua cerveja intocada. Segurando o riso, recomendei a ele uma Schneider Aventinus, que, dessa vez, foi aprovada com louvores.
Depois de uma garrafa e meia da Hanfblüte, saímos para um passeio pela cidade. Esperava, algum efeito da cerveja – nada alucinógeno -, mas nada veio. Fiquei com algum sono, mas acho que estava relacionado ao fato de ter dormido às quatro da matina e acordado quatro horas depois.
Já no Brasil, após alguma pesquisa, descobri que, apesar de levar flores e folhas de cannabis na fórmula, a cerveja possui teor de THC – o tal ‘elemento x’ – em quantidade tão ridícula (menos de 0,03%) que seria incapaz de fazer alguém ouvir reggae do nada. Reza a lenda – e o fabricante – que a cerveja busca “recuperar” a história de produção da bebida, quando a cannabis era plantada junto com o lúpulo nos campos.
Piadas á parte, é uma cerveja bem refrescante, que caiu bem num dia de sol forte em Zurique.
Escrito por Bob2 às 21h15
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