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AMSTERDAM
A salvação é azul...

...o metanol é verde, a indiferença é vermelha, a gambiarra é laranja e a porcaria é cinza. Foi inevitável não parodiar a trilogia das cores de Kieslowski (dos filmes A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e a Fraternidade é Vermelha) ao ver lado a lado as latinhas da Amsterdam, cerveja holandesa (como deixa claro o nome, aliás), importada pelo Wal Mart. Até pouco tempo atrás, o único interesse que elas haviam me despertado era justamente por conta de suas latinhas. Nunca ouvi recomendações muito abonadoras sobre o quinteto.
Há alguns dias, porém, no Frangó, cheguei à mesa de amigos e um deles estava tomando, se não me engano, a Navigator. Antes que alguém pense em criticar o nobre, ressalvo que ele tem, no geral, um bom gosto para cervejas (tomou, por exemplo, uma Licher na seqüência). Deve ter sido um momento de fraqueza rsrsrsrsrsrsrsrs.
A sério, peguei um bode especial da Navigator, porque ganhei uma de presente na véspera de um feriado, e a coloquei na mala para viajar ao interior paulista. Na falta de cervejas melhores por lá, resolvi apelar à latinha vermelha. Nem deixei que ela resfriasse completamente na geladeira. Era melhor que a tivesse deixado lá até a próxima Era do Gelo: adocicada e alcoólica ao extremo, é uma cerveja sem corpo, ou, mais especificamente, sem malte ou algo que equilibre tanto álcool. Não acabei o primeiro copo.
Voltando ao Frangó, quando vi o nobre amigo degustando a Navigator, perguntei, antes que alguém me instasse a declinar opinião sobre a dita cuja: “Mas por que você escolheu essa cerveja?” A resposta foi direta: “Estava na lista de promoções”. E citou os 8,6% de álcool dela. Bingo! Ele acertou em cheio: realmente são dois argumentos poderosos, o preço e o teor alcoólico.
Tenho ouvido comentários de que essas cervejas são realmente boas de venda. Em uma loja do Sam’s Club, o responsável pelo estoque disse que as Amsterdam têm saído à larga, resumindo toda a enrolação filosófica desse post: “É importada, não é tão cara quanto as outras e deixa o pessoal bêbado mais rápido”. De fato, a fórmula de trocar parte do malte da cerveja por açúcar tem “vantagens”: aumenta o teor alcoólico da bebida sem, com isso, elevar tanto o preço. Um saco de açúcar custa menos que um de malte, ouvi dizer, ainda mais em tempos de disparada de valores da cevada malteada mundo afora.
Só tem um probleminha, que eu já havia citado: a cerveja fica bastante desequilibrada, dominada pelo álcool, sem deixar aparecer outras características, como malte e lúpulo (que já se apresentam em quantidades bem discretas na receita). Quando muito, serve para esquentar num dia de inverno. Tive essa impressão ao degustar a Maximator e a Navigator. A Explorator me deixou ainda mais macambúzio: para ter 6,8% de álcool, não precisavam tacar açúcar na coitada da cerveja. Por que não buscar um extrato maior (extrato é a concentração de malte no mosto, mistura de água e cevada malteada que dá origem à cerveja)? Porque ia encarecer o produto, claro. Não sou contra o uso de açúcar nas cervejas, que fique bem claro. A escola belga o utiliza, mas com muito mais engenho, arte - e parcimônia - que os produtores da Amsterdam.
O que mais chamou a atenção no quinteto etílico, porém, foram as duas cervejas fora dessa “overdose” alcoólica. A Mariner, pelo que diz o rótulo, é uma lager puro malte. É bem suave, mas muito mais equilibrada que as outras, simpática. Pena que disputa a mesma faixa de preço de cervejas importadas (e nacionais) melhores aqui no Brasil.
Do outro lado, porém, está a Liberator. Ah, a Liberator. Achei que seria uma cervejinha inofensiva sem álcool. Até abrir a latinha e servir no copo, pelo menos, mantive a impressão. Ao sentir o cheiro, porém... o mais educado que posso dizer é “nunca senti nada igual” (lição aprendida com um colega em viagem à Suíça). Na verdade, senti, em um suquinho de vegetais chamado V8. Gostos à parte, não me agradou, e, creio, uma cerveja não deveria ter esse tipo de aroma. Sempre fico com dó de jogar cerveja fora, mas essa foi pelo ralo abaixo sem um segundo pensamento. Pobres povos que não consomem álcool. Mas não pára por aí: ainda não a temos aqui no Brasil, mas no site do fabricante consta que há uma versão da Liberator chamada Apple, que leva, obviamente, suco de maçã. Antes que aporte por aqui, já vou começar a pensar em mais um sentimento para adiciona-la a “hexalogia das cores”. Sugestões?
Em tempo: quase ia me esquecendo, mas fuçando o Orkut achei um comentário muito oportuno do mestre-cervejeiro Paulo Schiavetto, "pai" da Falke Monasterium, sobre as Amsterdam. Ele lembrou que o final "ator" nos nomes de cerveja refere-se a Doppelbocks, o que, nem de longe, é o caso da Navigator, Explorator e Maximator. Felizmente, o ilustre colega riopretano (e fã de Cotuba) reservou alguns nomes para o trio, como colocou em comentário no Orkut: Fraudator, Enganator e Ludibriator. Quanta maldade, nobre, tsc, tsc.
Em tempo 2: Oh, sim, eu alterei as notas para baixo. E digo o porquê: este blog conta com um ombudsman. Ou melhor, ombudswoman. Mais ainda, uma ombeerdswoman, a Gi. Não raro levo puxões de orelha pelo estilo de texto, digamos assim, "imediato", sem preocupações com o vernáculo. Outro dia ela viu este post e questionou: "Pô, mas você achou as cervejas ruins e ainda assim elas ganham média acima de 5? Porque se uma delas ganha 3,5, representa sete de um a dez." Foi aí que notei que estava sendo bonzinho demais nas avaliações, jogando cervejas ruins apenas "um pouquinho" para baixo das demais. E isso é ruim, porque cria um "bloco intermediário" gigantesco nas avaliações, dificultando a identificação do que é ruim de fato e do que precisa apenas de pouca coisa para melhorar. Convenhamos que as Amsterdams estariam numa zona de rebaixamento se a cerveja estivesse mais intimamente ligada ao futebol do que as propagandas sugerem.
Também notei que começo a ficar mais exigente (leia-se chato) sobre a qualidade das cervejas. Outro dia abri três até chegar a uma que me agradasse. Mas antes que alguém me acuse se sacrilégio, eram bem ruinzinhas, sim (hehehe). Preparem-se para uma versão mais ranzinza desse nobre missivista.
Escrito por Bob2 às 17h35
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GRÄBENWASSER
Água que passarinho não bebe

A expressão que dá título ao post é levada quase ao pé da letra pelo Ivan Steinbach, de Joinville. Depois de causar alguns “estragos” em casa, ele e o primo Diogo transferiram a produção da Gräbenwasser para a residência da tia, que também abriga um canaril. Lá, entre gaiolas, alpiste e passarinhos – mantidos, claro, a uma distância sanitariamente adequada (ou assim espero, após ter degustado) -, fermentam as cervejas da dupla. Em homenagem ao abrigo concedido ao "ninho" da nobre bebida, eles colocaram o canário preto no rótulo da Stout que produziram para o concurso da Eisenbahn. “Na verdade não existe uma linhagem de canários negros, apenas os obtidos por cruzamento, que não produzem filhos negros. Assim é nossa cerveja: todo mundo sabe que produzimos, mas ninguém até hoje viu a cor”, brinca Ivan. “Logo, logo, vamos fazer a primeira cerveja do Brasil com alpiste e painço!”

O rótulo da Gräbenwasser : yo no creo, pero que la hay, la hay
Embora a curiosidade seja inevitável, ainda vou enrolar mais um pouco até explicar o porquê do nome do Gräbenwasser. O Ivan começou a fazer cerveja em 2007, depois de ler que era possível produzi-la em casa, e pesquisar na internet. Com a ajuda do primo, partiu para a primeira leva. Ocorreram, por assim dizer, alguns percalços. “Sem a devida orientação, comprei extrato de malte em pó ao invés de grãos de cevada. Como a receita que tinha em mãos dizia que era preciso tostar o malte direto na panela antes de fazer a cerveja, mandei ver no extrato de malte com a panela quente”, conta. “Resultado: o extrato derreteu como se fosse açúcar, formando melaço! Tive que jogar fora e começar de novo.
A diversão (de quem lê, evidentemente) não parou por aí. “Usamos fermento Fleischmann. O sabor, obviamente, ficou comprometido, mas até que funcionou”. Completando a epopéia, havia ainda o “toque especial” de lúpulo. “A cerveja parecia água de criptonita. Como não tínhamos balança de precisão, colocamos tanto lúpulo que ela ficou esverdeada! O sabor mais parecia fel do que outra coisa...” Foi justamente essa cerveja inaugural que originou o nome Gräbenwasser. “Quando meu pai a viu fermentando numa bombona, disse: ‘Isso não é cerveja, é Gräbenwasser (ou água de valeta, em alemão)”, conta Ivan.
Depois de dar muita risada com a tradução, achei uma certa sacanagem: a produção deles evoluiu bastante, pelo que pude provar no concurso da Eisenbahn. Se bem que nunca provei água de sarjeta, coisa que não foi imaginada sequer por Nélson Rodrigues. Ele limitava a humilhação de seus personagens a tomar um Chicabon (ou não, se não tivessem alma) sentado na sarjeta.
Seguindo a história, a explosão de garrafas devido a mudanças climáticas - e os conseqüentes danos à limpeza diária da casa dos Steinbach - fez os cervejeiros serem “convidados” a buscar um novo local para a planta fabril da Gräbenwasser. Quando surgiu a notícia do concurso, o Ivan contou que ele e o primo decidiram “profissionalizar” a produção, com equipamentos e matéria-prima adequados. “Escolhemos a stout, um dos estilos de que mais gostamos.” A receita levou aveia e açúcar mascavo.
E não é que a cerveja se saiu razoavelmente bem? Ela caiu no meu grupo de jurados e, entre sete representantes, ficou em quarto, atrás das cervejas do Leonardo Botto, que faturou o concurso, do Ricardo Rosa, que ficou em quarto no geral mas já havia vencido o torneio da Acerva Carioca, e do Mauro Nogueira, outro cervejeiro bem experiente.
Fortuitamente, consegui uma garrafa para a segunda degustação em casa. Apesar de ter achado que a espuma era muito pouco duradoura e o corpo, um pouco fraco, a Canário Negro tinha um bom aroma e já me parecia uma cerveja promissora. Ganhou 76 em 100 na minha avaliação na Eisenbahn. Quando divulguei os nomes dos 22 concorrentes, pedindo mais informações sobre cada produção, o Ivan entrou em contato. Depois de contar a história da Gräbenwasser, ele me mandou uma segunda versão da stout, com mais corpo e espuma, já que ele próprio havia identificado os problemas em sua degustação da primeira cerveja.
De fato, a cerveja melhorou muito em qualidade e ficou com um bom corpo, embora a espuma ainda se vá rapidinho. Mas gostei do resultado e, principalmente, do avanço. Faço fé que os canários negros ainda verão outras boas cervejas saírem dos tanques da produção, sem, contudo, poder tomá-las. Espero que certas crenças sobre reencarnação na forma de animais não sejam verdadeiras, senão já sei qual pode ser a minha versão de “purgatório”. Pobres canários. (hehehe).

Em tempo: Quando bati o olho no rótulo, além de achá-lo muito bonito, lembrei que já havia visto algo parecido dias antes. Fuçando meus alfarrábios, descobri: no livro 500 Great Beers, do finado Michael Jackson, consta uma cerveja chamada Bramble Stout, feita pela inglesa Burton Bridge, que também tem em seu rótulo (esse aí de cima) um pássaro preto abocanhando uma fruta. Antes que alguém diga algo, não se trata de plágio, não, pelo que contou o Ivan. Eu acredito, mas vamos deixar as autoridades decidirem (rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs)
Escrito por Bob2 às 23h37
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