Latinhas do Bob 2
  

O MESTRE DOS MESTRES

Mauro (provando a cerveja) e Thiago: 'sócios' na

Confraria do Marquês. Foto:Alaor Filho/AE

Tão bacana quanto degustar uma cerveja diferente (ou mais até, dependendo da qualidade da bebida...rs) é ouvir as histórias de como ela foi feita e, principalmente, de quem a produz. Não fosse o nobre fermentado de cevada, é bem provável que eu jamais tivesse conhecido pessoas do naipe do seu Rupprecht Loeffler, de 90 anos, da Cervejaria Canoinhense (SC), o seu Adroaldo “Renegado” Eckert, pai dos sócios da Cervejaria Coruja (RS), ou o Vittorio Lewandoski, dono do sensacional Bierkeller, em Porto Alegre. E não é que outro dia descobri uma história tão “saborosa” quanto a cerveja?

 

O que o carioca Leonardo Botto, o catarinense Marco Zimmermman e o paulistano Eduardo Passarelli têm em comum? Ta, eles são cervejeiros caseiros e foram, pela ordem, primeiro, segundo e terceiro colocados no concurso Mestre-Cervejeiro da Eisenbahn. Botto e Passarelli também torcem por equipes tricolores que gozam de fama desabonadora entre partidários de outros times (rs). Mas, devaneios à parte, foi por meio do concurso que descobri outra coisa que une os três: de uma forma ou outra, eles tiveram um período de aprendizado com o Mauro Nogueira, da Confraria do Marquês.

 

Carioca, o Mauro, que é advogado, fundou a Confraria em 2005, junto com o primo e parceiro cervejeiro Thiago Dardeau. O objetivo era justamente fazer boas cervejas em casa e difundir o conhecimento da produção, por meio de cursos de cerveja caseira.

 

O próprio Botto conta que foi um dos “calouros”, em 2005. “Cheguei neles pelo Orkut. O curso é simples e legal, mas o que faz a diferença é o ‘pós-venda’, a atenção que o Maurinho dá após o curso, tirando as milhares de dúvidas iniciais (muitas das quais bobas ao extremo)”, diz o cervejeiro, que faturou o troféu do concurso da Eisenbahn com a strong belgian dark ale Dama do Lago. Passarelli foi aluno da Confraria no início de 2007. “Quem me indicou o curso foi o Luiz Guilherme, que eu considero meu ‘guru’ cervejeiro (n.r.: o cara é apreciador e um dos maiores ‘caçadores de cerveja’ que conheço). Ele disse que, se eu queria aprender a fazer cerveja, ou era com a Confraria ou não devia fazer”. A “estréia” na produção cervejeira ocorreu com uma Pale Ale, que teve a receita reproduzida depois. “Liguei várias vezes depois para sanar dúvidas e sempre me ajudaram”. O paulistano ficou em terceiro no torneio da Eisenbahn com uma dubbel que leva seu nome.

 

Zimmermmann, por sua vez, não chegou a fazer o curso, mas duas “aulas” práticas durante passagens pelo Rio de Janeiro – uma para os Jogos Pan-Americanos e outra no Para-Pan. “Foi com o Mauro que fiz cerveja pela primeira vez. Já sabia toda a teoria, mas faltava ver a prática, os equipamentos”. Depois da “estréia” com uma cerveja defumada, a segunda produção foi uma stout. O catarinense conta que Mauro ainda ajudou na receita da Extra Special Bitter Opus, que ficou em segundo lugar na competição da Eisenbahn. Num pequeno parênteses, o Zimmermann e o “sócio-cervejeiro” Murilo Foltran lançaram um blog sobre a produção da Opus, que já coloquei na barra de links à direita.

 

O próprio Nogueira afirma que o início das produções foi difícil, pela falta de literatura em português e isolamento dos cervejeiros. A saída foi um “intercâmbio” de informações com os “hermanos” argentinos. “Eles estão uns 15 anos à nossa frente em produção de cerveja artesanal”. Ele ainda descreveu ao jornal O Estado de S. Paulo a sensação de abrir a primeira garrafa de cerveja que produziu: “Quando eu abri e fez aquele barulhinho de pressão, fiquei emocionado”.

 

Pois é, até aqui tudo maravilha, o Mauro formou um “celeiro” de craques cervejeiros. Mas, por alguma dessas bizarrices do destino, o “mestre dos mestres” nunca faturou um caneco nas principais competições cervejeiras até agora (Acerva Carioca 2006 e 2007, ‘Campeonato Paulista’ 2007 e Eisenbahn). Lembram da stout que eu mencionei alguns centímetros acima, que foi feita na segunda “aula” do Zimmermann? Pois é, era a oatmeal stout cuja ficha ilustra o post e que participou do concurso da Eisenbahn. Ela caiu no meu grupo de degustação inicial. Pelos meus alfarrábios, dei-lhe nota 84 em 100 possíveis. Os outros componentes da mesa, se não me traem os ouvidos, também ficaram na casa dos 70/80. Mas ela ficou no mesmo grupo da Dama do Lago e da Tríplice Coroa, uma tripel feita pelo Ricardo Rosa (que avançaram à final) e acabou em terceiro. Coisas da vida, vai entender. Mas faço fé que ele vá emplacar sua cerveja no posto mais alto do pódio.

 

Enquanto isso, Mauro apostou em duas produções mais “radicais”. Uma delas é uma Imperial Índia Pale Ale, com 8,2% de teor alcoólico e inacreditáveis 109 IBUs (para quem não sabe, International Bitterness Unit, ou Unidade de Amargor Internacional; como comparação, uma cerveja industrial gira na casa dos 10 hehehe). Achou pouco? Pois a criação seguinte recebeu o singelo nome de Hop Wine, ou “Vinho de Lúpulo”: 149 IBUs!!! É de deixar com inveja a turma da BSG, de Porto Alegre, que também prima pelo amargor. É cerveja digna de concurso: se não vencer, fará tremer os concorrentes que a sucederem. Afinal, não deve ser fácil ‘apagar’ o gosto residual. Hehehe. Brincadeiras à parte, espero poder provar uma e postar as avaliações por aqui.



Escrito por Bob2 às 15h30
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Nem bem começou 2008 e Blumenau já vai realizar o primeiro evento cervejeiro do ano, a partir de 10 de janeiro. Trata-se da Sommerfest (ou festa de verão), que reunirá microcervejarias catarinenses no pavilhão 1 da Vila Germânica, onde também ocorre a Oktoberfest.

 

Além do dia 10, a festa também vai rolar nos dias 17 e 31 de janeiro, 7 e 14 de fevereiro, sempre a partir de 19h. Devem servir suas produções por lá a Eisenbahn, a Bierland e a Wunderbier, de Blumenau, a Borck, de Timbó. A Heimat, de Indaial, e a Das Bier, de Gaspar. Informou o Jornal de Santa Catarina que a Zehn, de Brusque, abriu mão de participar, e a Schornstein, de Pomerode, ainda negociava sua entrada no evento.  

 

Como no ano passado, cada copo de chopp vai custar R$ 4. Também devem ser servidos pratos típicos e realizadas apresentações de música alemã.

 

Nota do autor: como não consegui ir à Oktober, sinto-me impelido a presentear-me com uma passadinha por lá. A ver, a ver...

 

De 18 a 27 de janeiro, Pomerode, pertinho de Blumenau, também realiza sua festa Pomerana. Ao contrário de 2007, quando apenas a Schornstein e a Ambev serviram cerveja no evento, este ano estarão por lá, além das duas, a Eisenbahn e a Heimat, de Indaial.

 

Sobre a Oktober que passou, algumas curiosidades: cada um dos 690.144 visitantes que passaram pela festa consumiu, em média, 528 mililitros de cerveja, ou um total de 365 mil litros. Em 2006 foram 355 mil litros, segundo os organizadores, mas os visitantes eram apenas 602.941, o que perfaz, em média, 528 mililitros por cabeça.

 

As pessoas beberam tão menos assim? Não: elas também consumiram 19.821 garrafas de cerveja importadas pela Ambev. Calculando por baixo – as garrafas menores tinham 330ml, salvo a Hoegaarden, mas ela só chegou nos últimos dois dias -, esse total de vasilhames representaria 6541 litros. E faria a média de consumo saltar para 538 ml per capita. Alguém andou maneirando na cerveja, pelo visto (rsrsrsrsrsrs). Devem ter tomado refrigerante: afinal, foram vendidos 136.496 tickets.



Escrito por Bob2 às 02h16
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Durou 16 horas e 30 minutos minha resolução de Ano Novo de maneirar no consumo de cervejas em 2008. Logo depois de degustar uma Wäls Dubbel à meia-noite, havia decidido reduzir quantitativamente e selecionar qualitativamente os fermentados que encaminharei goela abaixo nesse ano vindouro. Estava eu de plantão, tomando uma água tônica, quando a mensagem pipocou na tela: “Bob, vc poderia vir aqui um pouco?” Era o Luiz Américo, que, numa apresentação resumida, é meu “chefe cervejeiro”. Como não escrevia sobre cervejas há duas semanas e tinha o que contar, imaginei que o assunto era trabalho.

 

Ledo engano. Ou melhor, nem tanto: um dos assuntos, de fato, era trabalho. O outro era realizar uma análise crítico-sensorial de uma cerveja que a irmã dele havia enviado da Bretanha. Vale lembrar que foi o mesmo Américo que providenciou a degustação da Mor Braz, que, reza a lenda (e o fabricante), é feita com água do mar. A cerveja da vez foi a Sant Gwenole. Para manter o padrão oceânico, o produtor, a Brasserie du Trégor, informa que a receita dessa ambrée inclui algas marinhas. Munido apenas do meu celular, fiz a tosca foto que ilustra a ficha.

 

Como havia degustadores demais para cerveja de menos (era apenas uma long neck de 330ml para meia dúzia de interessados), as doses tiveram de ser assaz homeopáticas. Copos de tequila e licor foram tirados do armário (sim, eles fazem parte do trabalho diário do povo lá).

 

Peguei um que se parecia com um cálice de degustação, com a boca consideravelmente menor que o fundo. O que saiu da garrafa foi uma cerveja com uma interessante cor laranja. Depois de sentir bem os aromas, provei a cerveja: a primeira sensação foi de que era salgada, mas, assim com a Mor Braz, podia ser influência da informação pré-conhecida. Mas agradou bastante a cerveja.

 

E as algas? Eu não senti. Mas confesso que meu conhecimento sobre o ingrediente resume-se àquela folha preta que envolve hossomakis, temakis e afins. Não possuindo conexão genética - além do normal - com peixes-bois ou outros personagens da fauna que almoçam, jantam e ceiam algas, e tampouco tendo sido obrigado a cobrir “protuberâncias” do corpo com sargaço após protagonizar vídeo fazendo, digamos, outros tipos de “refeição” al mare, faltou-me conhecimento para identificar a diferença.

 

Para punir tamanha ignorância gastronômica, o missivista mereceria provar uma cerveja feita com gigogas, aquelas plantas que se proliferam em ambientes poluídos e que, no verão, se revezam com as águas-vivas (na verdade caravelas) para atazanar os banhistas. Hum, melhor não dar ficar dando idéia. Vai que, em tempos de “lemons”, “fusions” ou o coisas do mesmo naipe, a moda pega...

 

Em tempo: após tamanho festival de besteiras, um pouco de cultura. O rótulo da Sant Gwenole reproduz um quadro que está no Museu de Belas-Artes de Quimper, na Bretanha, chamado “A Fuga de Gradlon” (1884), de Evariste Luminais. Em linhas gerais, Gradlon era o rei de Cornouaille (não a Cornualha do rei Arhur), e construiu uma cidade chamada Y’s, que ficava abaixo do nível do mar. Ele carregava consigo a chave das comportas que impediam o local de ser inundado. A filha dele, chamada Dahut, porém, teria roubado a chave, influenciada pelo diabo, e aberto as comportas. Enquanto fugia com seu cavalo, o rei viu a filha se afogando e tentou salvá-la. Aí entra o Sant Gwenole: o religioso (então ainda não canonizado) berrou para Gradlon que ele não conseguiria escapar se levasse a filha. Após relutar, o monarca largou a moça às águas. Depois, foi lá e fundou Quimper. E é isso. Ufa, não tenho vocação para Ésopo.



Escrito por Bob2 às 20h46
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CANJIBRINA (E ALICE TAMBÉM)

'Bananão Ale' e outras receitas

Paula (agora no projeto da cerveja Alice) e Heitor no Bierkeller: homebrewing gaúcho.

Antes que alguém pergunte, a garrafa de Nova Schin na mesa acondicionava

uma das cervejas caseiras degustadas naquele dia (hehehehehehe)

A algumas horas do encerramento de 2007, aproveito um respiro no plantão para retomar os posts desse humilde periódico, após a folga de Natal. E com um tópico que já estava para lá de atrasado: as viagens ao Rio Grande do Sul. Graças à cordialidade e esforço do Vittorio, do Bierkeller (sobre o qual já escrevi aqui), pude conhecer, em minhas férias no Rio Grande do Sul, alguns homebrewers locais. Um dos grupos foi justamente o povo da Canjibrina.

No dialeto local, a palavra tem o mesmo significado que mé, goró, cana, cátiássa e seus congêneres.  “É uma expressão antiga. Meu avô dizia que, quando o cara estava bêbado, é porque tinha tomado umas canjibrinas”, diz Paula Muhlbach, umas das fundadoras da marca. Ela conta que a idéia de produzir cerveja teve incentivo do Vittorio, no Água de Beber (bar que antecedeu o Bierkeller). “Ele nos incentivou, e indicou o Schumacher (Herbert, da Abadessa), o Jorge (Gitzler, da BSG)...” A produção começou em setembro de 2006, já com um lema de efeito: "Amar a cerveja sobre todas as coisas".

 

Segundo Paula, antes mesmo de a cerveja ser degustada, o rótulo da Canjibrina já era conhecido. “Um amigo nosso fez um curta e colocamos lá a garrafa. Depois, era uma questão moral produzir a cerveja”. Completam a turma da cerveja o Heitor Fernandes e a Desirée Marantes.

 

Pesquisando meus rabiscos em blocos antigos (a caligrafia sofrível não melhorou nada após algumas cervejas), achei as anotações da sessão de degustação das Canjibrinas no Bierkeller. Foram quatro cervejas. Além da dark ale e da ale citadas acima, provei mais duas ales. As parcas anotações me lembram que uma delas usava açúcar orgânico em vez do cristal, e tinha aroma bem adocicado (algo de mel, possivelmente). A segunda versão, que é a ale descrita no “Direto ao Pint”, foi feita tendo como inspiração a weizenbier Paulaner. “Mas usamos uma balança quebrada para medir o lúpulo”, diz Paula. De fato, o registro feito por este missivista aponta que ela tinha notas bem mais intensas de malte e lúpulo, sendo a melhor do conjunto. A terceira ale foi apelidada de Bananão, mas era por demais adocicada..

 

Quase seis meses depois da degustação, entrei em contato com a Paula, para atualizar informações. E tive uma surpresa, pois ela deu início a uma “carreira solo” da Canjibrina: a Alice, também uma homebrew. “Moro em Eldorado do Sul, a uns 30km da casa do Heitor. Era difícil produzir a cerveja, beber e voltar para casa depois (rs). E também queria ficar ‘acariciando os filhotes’ durante a fermentação e maturação”. A produção atual dela é de 20 litros por brassagem.

 

Com dedicação integral à produção cervejeira nas férias, Paula se prepara para colocar a Alice em alguns bares. Um deles é o Água de Beber, ex-QG do Vittorio, que também deve ter alguns exemplares da Canjibrina. O outro é o Malvadeza Pub, bar aberto em janeiro na Cidade Baixa; um dos sócios é primo de Paula e, ele também, cervejeiro caseiro. No dia 9 agora, aniversário de um ano do local, deve ser lançada a Malvadeza Stark Hölle Ale. Além da novidade cervejeira em meio a um oceano de industriais, o fato também ganha importância para ver como se sai uma produção caseira em duelo de venda com outras marcas. A ver...



Escrito por Bob2 às 22h45
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