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BSG, PARTE 1
'A vida é amarga, nossas cervejas mais ainda'


Sassen, Gitzler e Boger: produção cervejeira com todo o gás
O que dizer do trio aí em cima? A primeira coisa que me vem à cabeça na hora de escrever são boas risadas. Além de produzir belas cervejas, o médico do trabalho Eduardo Boger, o advogado Jorge Gitzler e o diretor de cinema Leo Sassen foram garantia de momentos bem divertidos durante minhas férias no Rio Grande do Sul. Para não gastar o estoque de tiradas bacanas logo de cara, vou lembrando-as no decorrer do texto, que também será "fracionado" (culpa das limitações do provedor).
Faz alguns meses que o trio mudou sua produção cervejeira – por ora, ainda voltada para consumo próprio e de amigos – de uma salinha no centro de Porto Alegre para o térreo de uma casa em bairro residencial. O senhorio do local é um chinês que, se não é desprovido de olfato, deve ter ficado bem fulo da vida quando, num sábado nublado, em meio a uma sessão de produção cervejeira, seus ilustres inquilinos tocaram fogo na churrasqueira para assar carnes alguns metros abaixo de onde ele estava, deixando as roupas do varal com um agradável aroma de rauch (ops, espero que ele não leia isso, porque não tenho como ser testemunha em ação de despejo).
O nome BSG é uma citação à antiga fusão das cervejarias Bopp, Sassen - sim, o mesmo sobrenome do ilustre Leo - e Ritter, que deram origem à Continental em 1924; a sede do grupo existe até hoje em Porto Alegre, em um prédio muito bonito que está sendo restaurado e será objeto de post mais adiante.
Uma das marcas da produção da BSG é a grande quantidade de lúpulo adicionado na maioria das cervejas que nascem ali, fazendo jus ao ditado que dá título ao post – adicionado à lousa de mensagens da fábrica enquanto eu estava por lá. Além de dar uma marca própria à cerveja, a alta lupulagem também tem outra função primordial: levar à loucura o Sassen, que não é lá muito fã de cervejas amargas.

Fundamentos da produção cervejeira, versão BSG
Atenciosos, Boger e Gitzler contam que se dedicaram a preparar cervejas especialmente para o gosto do colega: uma delas, mais "suave", tinha índice de amargor (ou BU) de 42. Como critério de comparação, uma pilsen normal tem esse BU em torno de 10 hoje. A outra, elaborada de forma ainda mais sensível em comemoração ao aniversário do companheiro, criou uma nova variação de cervejas de trigo: WA ou weizen amarga. Outras siglas que constam na lousa da BSG são reveladoras: BA (bastante amarga), EA (extremamente amarga) e UB (sutilmente, uma bosta). No feriado, Boger e Gitzler trocaram o ócio pela dedicada tarefa de produzir mais uma variedade ao gosto do Sassen: batizada de "Bumbum Dodói" Pale Ale (por motivos que este blog ainda há de apurar), ela deve ter coisa de 50 BUs...
(CONTINUA)
Escrito por Bob2 às 20h52
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BIERKELLER
O PARAÍSO CERVEJEIRO OU 'BEERVANA'


Sabe qual o lugar preferido do Vittorio no Bierkeller? Se respondeu o balcão da foto acima, errou. Trata-se de uma salinha ao lado, onde ele pode ficar junto da janela, olhar todos os ambientes e, de quebra, estar mais próximo do principal produto do bar-clube-museu. A foto acima é de Divulgação
RÁPIDO PREFÁCIO: Há algumas semanas, estive na Suíça a trabalho (embora tenha conseguido algumas cervejas também rs). Um dos integrantes do grupo do qual participei era um fotógrafo chileno e louco chamado Jorge. Um belo dia (ou noite, depois de trabalhar e degustar vinhos a granel) o cara cisma que quer ir no "Bar del Mundo". "Mas onde catzo fica esse bar? O que é esse lugar?", perguntei. "Mejor del mundo. No hay igual", repetia ele, apenas, deixando claro que, se conhecia algum bar ali, não fazia idéia do endereço. Como achei que o cara estava meio 'borracho', não dei muita bola. No dia seguinte, em outra cidade, o mesmo papo do "Bar del Mundo". Caceta. Dias depois, supus que o tal bar devia ser uma metáfora para o lugar em que nós estamos, que se torna o 'melhor do mundo' (ainda mais depois de umas e outras) com nossa presença, não importando se for uma bimboca ou um bar de luxo, no Chile, no Brasil ou em outro local qualquer: daí a denominação "Bar del Mundo".
O que tudo isso tem a ver com o post? Simples: cheguei à conclusão que o Bierkeller é a minha concepção de "Bar del Mundo". Só que em efeito inverso: em vez de achar que qualquer lugar é bacana simplesmente por estar nele, passei a procurar nos bares cervejeiros que visito um pouco do clima do congênere gaúcho, para mim imbatível entre os estabelecimentos que conheci. Não sei se é o 'mejor del mundo', mas seguramente 'no hay igual'. Depois desse interlúdio, os fatos:
Olhe com atenção para as fotos acima. Primeiro, porque o gaúcho Vittorio Lewandowski não é muito fã de posar para retratos. E também porque, caso não tenha indicação de um amigo em comum ou não deixe claro seu interesse em boas cervejas logo de cara, é tudo o que você verá do Bierkeller. O local, que funciona como bar mas não faz propaganda para atrair clientela; é o que se pode chamar de "nirvana" cervejeiro em Porto Alegre. Por razões óbvias, não vou revelar o endereço. A única dica é que, para tentar chegar até ele, um dos caminhos é frequentar o Água de Beber, bar que fica no centro de Porto Alegre, com uma boa carta de cervejas (e paro por aqui...hehehe)

Raridade: cartazes de Quilmes feitos com nanquim, dos anos 20. O rádio funciona - ouvi Santos x Grêmio pela Libertadores nele
Escrito por Bob2 às 14h09
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Geladeira do arco da velha e moedor de café idem: e os dois funcionam! Mais abaixo, caixa de Pepsi-cola; o refrigerante é um dos objetos preferidos de coleção do Vittorio
Por fora, a casa azul de esquina não chama atenção, mas esconde 'tesouros' para colecionadores de cervejas, refrigerantes e também de antiguidades. Tudo foi garimpado por Vittorio, ex-supervisor de vendas da Brahma, que tem um faro capaz de levá-lo, a centenas de quilômetros de casa, a encontrar um bar na Liberdade, em São Paulo, que ainda vendia a meia Brahma - um a zero para ele contra os apreciadores paulistas aqui. "Levei seis meses para montar o Bierkeller. Cada objeto que está aqui foi resultado de uma luta para consegui-lo. Nem sempre é o valor que conta", diz. Ele lembra de um termômetro antigo da Pepsi-Cola que conseguiu em um posto de gasolina apenas depois de presentear o antigo dono com outro, novo, de mármore e madeira, que tinha o nome do estabelecimento entalhado. "Mesmo assim, ele me pediu para negociar com o filho. Mas consegui."

O termômetro da Pepsi, um dos itens mais "suados" de ser
obtido da coleção do Bierkeller. A foto é de divulgação
Quem consegue convencer o dono do Bierkeller a abrir a porta – ele observa quem chega por uma portinhola de vidro – tem a impressão de entrar em uma venda do começo do século passado. O que não deixa de ser verdade, pois ele conta que o lugar abrigava armazém de 'secos e molhados' dos anos 20, que mantém o piso original, quadriculado. "Quem entra tem um choque cultural".
Boa idéia de como usar os barriletes: acho que farei em casa também
Escrito por Bob2 às 14h01
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Capas de LPs no teto - há cerca de 3 mil 'bolachas' no Bierkeller e acendedor de isqueiro na parede: "There's treasure everywhere", diria Calvin, se tivesse idade para beber
Uma das primeiras visões do visitante é a de uma enorme cristaleira, que guarda garrafas antigas de cerveja e copos, da casa e dos clientes mais assíduos. "Tem gente que se sente tão em casa que faz questão de ajudar a lavar os copos antes de fechar." Em cima do grande balcão de madeira, uma caixa registradora de ferro dourado, comprada no Uruguai. Um pouco mais para o fundo, uma geladeira antiga, daquelas de alça cromada, e um moedor de café com compartimento de vidro para os grãos. Há tanta coisa a ser observada em cada canto que fica difícil pensar em cerveja. Mas elas estão lá: logo ao lado da porta de entrada, há uma 'geladeira' antiga da Antarctica – uma caixa de madeira azul, na qual só é possível observar o pescoço de garrafas enterradas em gelo picado. Depois do impacto inicial, escolha uma, sente-se e aprecie o ambiente com calma, antes de 'fuçar' o resto da casa.
O Bierkeller tem uma boa carta de cervejas importadas, mas vale conferir principalmente as produções locais, como a Abadessa, a Coruja e a Schmitt. Vez ou outra, Vittorio também coloca à venda algum item inusitado, como a Spritzbier (ou cerveja de pressão, feita com gengibre, fermento, açúcar e água), que ele descobriu em uma viagem a Picada Café, sendo vendida na beira da estrada por um colono descendente de alemães, que deu uma bela "canseira" no nobre dono do Bierkeller até topar colocar a produção em garrafas de espumante..

Tio, dá para levar tudo para casa? Ou mudar a sede do bar para São Paulo?
Escrito por Bob2 às 13h52
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No subsolo, a câmara fria: acesso restrito e casaco de "prontidão"
Após a primeira cerveja, que pode ser acompanhada de acepipes servidos num balcão, é hora de "degustar" o bar. Ainda no salão principal, repare nos lustres – feitos com barris de cerveja alemã – e nas paredes, que guardam cartazes e propagandas antigas. Uma delas, a nanquim, foi feita na Argentina em 1928. Os bancos são barris de madeira que eram usados pela Antarctica para o transporte de cerveja; eles foram substituídos pelas modernas versões de alumínio.
Espie a cristaleira e o balcão com calma, e peça ao dono do Bierkeller para mostrar um dos rótulos antigos de cerveja ou refrigerante de sua coleção – o mais raro é o da Brahma Bock, feita em Passo Fundo nos anos 40. Um deles, que ganhei de presente, ainda soltava poeira dourada da pintura, mesmo tendo mais de 50 anos. Você também pode colocar para tocar na vitrola um dos mais de 3 mil discos antigos que ficam guardados por ali. No banheiro, outra surpresa: três fotos de uma mulher nua, como pode ser observado abaixo (tirem as crianças do blog!) e mensagens filosóficas sobre a nobre bebida:
 
Filosofia na hora do 'pisoir': prevalece a forma ou o conteúdo? Nos quadrinhos, pela ordem: "Sábio o homem que inventou a cerveja (Platão)"; "É uma pena que todas as pessoas que sabem como governar o mundo estão ocupadas tomando cerveja (George 'Beerns)" e "Nós cervejeiros não fazemos cerveja, apenas misturamos os ingredientes e, como mágica, ela se faz sozinha (Fritz Maytag)"
O próprio Vitorio guarda algumas surpresas na manga. Depois de tomar a cerveja, desafie-o a colocar dentro da garrafa uma moeda que não passa pelo gargalo. Ele vai "aumentar" a aposta, dizendo que a colocará sim, mas pelo fundo do vasilhame, onde não há passagem possível. Ouvir a moeda tilintar no vidro pelo lado de dentro só não é mais surpreendente do que vê-la novamente fora da garrafa. Se depois disso ele oferecer o cartão de visitas, tome cuidado, mas aceite. Faz parte do clima do local.
Da minha parte, depois de ver todo o acervo do bar, as cervejas e o afinco do Vittorio em garimpar as coisas e mantê-las conservadas, saí de lá com uma exaltação (imagino que o álcool também tenha relação com... isso rsrsrs), disposto a largar o traballho para pesquisar a história de todas as cervejarias País afora que foram sumindo com o tempo, só tomar artesanais brasileiras e, a médio prazo, montar um bar com minha coleção cervejeira. Infelizmente, a vida se encarregou de deixar o missivista mais "calminho" com o passar do tempo.
Escrito por Bob2 às 13h40
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O CERVEJEIRO DA HORA
(ou o cara a ser batido no concurso da Eisenbahn em novembro ...hehehe)

Ricardo (centro) com os colegas de Acerva Carioca. Tasso Marcelo/AE
Publicado no caderno Paladar, do Estadão, na última 5ª:
Primeiro, vieram a música e os cálculos. E as duas paixões tiveram influência nas cervejas do matemático carioca Ricardo Rosa. No sábado, ele venceu o 2º Concurso Nacional de Cerveja Artesanal, organizado no Rio pela Acerva Carioca, entidade de cervejeiros caseiros. Faturou o prêmio nas categorias estilo livre, com a english barley wine (cerveja de alto teor alcoólico) chamada A Inveja de Baco, e stout, com a criação Espresso da Meia-Noite – com “s”.
Da matemática, aprendeu a pesquisa meticulosa de estilos e a parte técnica da fabricação de bebida. “Gosto de identificar qualitativa e quantitativamente o que influencia o processo, é curiosidade científica”, diz. Ele afirma que, na música, tinha boa técnica. “Mas sentia que faltava inspiração. Sempre tive receio de ser tachado de técnico e não de artista.”
Suas cervejas, porém, têm dose de inventividade, como constaram os jurados. E também os norte-americanos. Em julho, Ricardo foi o primeiro estrangeiro a vencer uma das categorias do Brewers Cup de Indianapolis, com A Inveja.... As cervejas do carioca também chamam atenção pelos nomes. “A Inveja de Baco é uma brincadeira. Até Baco invejaria, pois está mais encorpada que vinho”, diz. A Espresso... foi trocadilho com o filme: o “s” entrou para ressaltar notas de café na cerveja. A Inveja..., aliás, foi protagonista de outro “pecado”pós-concurso: a cobiça. Durante a entrevista, Ricardo pediu licença e correu à geladeira onde estavam as amostras concorrentes, para “salvar” o exemplar restante da barley wine. Tarde demais.
Escrito por Bob2 às 15h51
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UM PARABÉNS ATRASADO...

Pois é, nobres leitores. A data já passou, o post tá atrasado, mas eu não deixei a degustação passar despercebida. Na última sexta-feira, a cerveja aí de cima completou 165 anos. Estava eu folheando "O Catecismo da Cerveja" quando dei de cara com a história do nascimento da Pilsner Urquell. Em linhas breves e gerais, a cerveja que virou padrão de pilsen no planeta veio ao copo (e não à luz, senão ela ia ficar meio esquisita logo de cara) em 5 de outubro de 1842, "medindo" 37 hectolitros, pelas mãos do cervejeiro alemão Josef Groll.
O primeiro nome da Urquell veio de sua terra natal, Pilsen (ou Plzen), na atual República Tcheca. Lá, ela foi inicialmente produzida pela Bürgerliche Brauerei. A apresentação oficial da cerveja, porém, só ocorreu em 11 de novembro. De acordo com o "Catecismo", um texto comemorativo dos 50 anos da Urquell, de 1892, a descrevia como "de cor ouro-claro, com borbulhas acentuadas e espuma branca e abundante". Bem diferente das cervejas escuras alemãs de época. Groll ainda teria encontrado na região os ingredientes ideais para criar uma cerveja como a pilsner: o lúpulo Saazer e o malte claro da Boêmia.
Hoje, a cerveja passou para o controle da South African Breweries (ou SAB, associada à Miller). Dizem os críticos que ela mudou, que ficou menos amarga. Mas ainda é padrão do estilo no mundo. Comparada às produções brasileiras (e isso inclui a grande maioria das artesanais), deixa claro que as versões nacionais do estilo "achataram", e muito, o índice de amargor, tecnicamente chamado BU, uma das principais características da pilsen. Da minha parte, gostaria de tomá-la com mais freqüência do que tem ocorrido... (rs)
Hoje, salvo esporádicos exemplares trazidos por desbravadores cervejeiros, como noticiou o Luiz Eduardo no Orkut (ele achou uma garrafinha em Santa Catarina por excelentes R$ 12), o único local de que se tem notícia com um estoque de Urquell é o Tortula, em Santo Amaro, na Capital. Cada latinha lá, porém, custa salgados R$ 29,90, tópico já debatido um pouco mais abaixo. O exemplar lá de cima veio direto da Espanha, de presente. Guardei-o com carinho por três meses até o aniversário, para poder celebrar em grande estilo. Agora, acho que só no ano que vem...
Escrito por Bob2 às 11h40
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